domingo, 25 de março de 2012

meninices


Ela é branca e é leve,
ela é poesia do samba em copacabana.
Ela é a ponta esquecida, a doçura em sorriso e a inteligência emocional.
Assim como menina, mulher ela parece ser,
assim como mulher, menina se faz conhecer,
brincando de gente grande na cidade que não é sua.
Correndo como princesa, se debatendo como rainha,
pulando como poeta ela gira a sua alegria.
Ela é poesia do Cartola tocado na vitrola.
Ela é leveza de alma, é sorriso sincero e tranquilidade pra deitar.
É mole, maleável, transformável, hipnotizante, apaixonante.
Ela é suspiro tranquilo, viagem pro mato e carinho que fica.
Assim na despretensão o poder de comunhão,
ele é ar, ela é leve,
ele é fluxo, ela é me leve,
ele é doido, ela maluca,
água e fogo na mistura bruta.
Ela é café doce, ele mais pro amargo,
ela é sudeste e ele é nordeste.
De manhã pastel de feira,
mas pra tarde cochilo e bobeira.
Assim na diversão eles se encontram por distração,
menina que ri com a alma,
menina que foge para o que acalma.
A fuga da princesa entediada,
nas ruas e nas calçadas,
bebidas sempre por perto,
nas suas reflexões deslavadas.
Flor e amor,
rima e dor,
banho se for,
aqui o ardor.
Ela escorre como água,
ela é fluido como um rio,
é a possibilidade que fica,
na cabeça bandida,
do autor em despedida, que com a morte sempre brinca.
Ele é fui, ela é até logo.
Magra, branca, linda!

quinta-feira, 22 de março de 2012

será?


Desesperadamente ele parece ouvir vozes.
Compulsivamente ele parece ler palavras,
como que gritadas pelos dedos da menina ao lado.
Ele confuso como sempre desconfia calado,
a ligação em silêncio,
a solidão repartida e a menina que com dedos fala mais que com a boca.
O carinho e a vontade de saber,
o tesão e a vontade de comer,
o querer e o insistente permanecer.
Como rima desconfiada,
como música não dançada e a certeza atrapalhada,
ele dorme na cama vazia.
A outra e a possibilidade, ele e sua lealdade,
lutando pela liberdade e contra qualquer verdade.

quarta-feira, 21 de março de 2012

ta passando.

Tá difícil de passar aqui,
o tempo passa escorrendo pelas mãos.
Passa o verão, passa os dias se transformando em meses.
O que fica é a marca de expressão na falsa cara de criança.
Fica a dor no peito, a saudade que atravessa e a busca que não sessa.
Tá difícil ficar aqui, ficar em qualquer lugar parece uma abstração.
Outros lugares chamam, o relógio grita e só o nó na garganta é que fica.
Sem ócio criativo...a vida vai seguindo como se fosse de verdade.
Mas o poeta vacilante brinca de poesia na noite tardia.
Correndo atrás da paz, buscando o tempo que lá detrás parece passar bem fugaz.
E quando a rima se faz presente, é que o poeta contente
e por demais insistente escreve calmamente.
Deixando a hora passar, a menina olhar, o aperto aliviar e a possibilidade ficar.
Abrindo outros olhares, diante da vista cansada, da voz embargada no meio da madrugada.

sexta-feira, 2 de março de 2012

eu e eu mesmo


Tenho andado sozinho, mas acompanhado de muita gente.
Tenho pensado sozinho, mas lendo muita gente.
A cada passo o olhar pro lado e a vontade de gritar.
O aperto no peito parece se repetir, e as pequenas saudades crescem pra me repartir.
Estou assim, dividido. Entre mim, pessoas e eu mesmo.
Acontece que eu mesmo estou sozinho, como um personagem de Dostoiévski.
Perambulando por entre ruas e pernas, correndo na praia e de mim mesmo, sozinho e cheio de gente ao meu redor.
As vésperas de um grande dia, pequenas dores, perdas e amores, vidas e passagens parecem me transformar num monstro.
Olho no espelho e minha barba tá grande.
Olho mais uma vez e um aperto que não tem nome.
Como menino travesso atravesso pessoas e me endureço, o coração encanta e não é encantado. A vontade vai e o desejo fica.
E assim como adulto travesso brinco de encontrar e sozinho é inevitável estar.
Queria a leveza da bolha de sabão, a adrenalina do ator na coxia e a vontade ainda que tardia.
Quero o pop e quero o rock, mas no fundo quero deitar a cabeça vazia no travesseiro dividido.
Quero me bastar por inteiro e dividir o que não tem divisão.
Quero brincar de esconde esconde e contar história pro meu amor.
Quero o carinho do pai e o amor da mãe.
Quero colo, quero somente a possibilidade de felicidade.
E cá...com o peito sem entender e o sorriso a socorrer me contento comigo mesmo em devaneios desvairados pela madrugada adentro.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

amor com amarras


Acabo de dar uma colherada num pavê. E nesse momento eu posso dizer: amo pavê!
Ainda bem o o pavê não vai querer me amarrar. Por que o amor tem que prender?
O amor é livre e libertador.
A mãe, ama e solta pro mundo. O pai, ama e empresta o carro. O avô, ama e dá um dinheiro.
Sempre libertando o homem que precisa ir ao encontro de si mesmo.
Mas e o amor sexual?
Ele parece querer prender. O homem quer prender a mulher. A mulher quer prender o homem.
Ou nos casais homossexuais a mesma coisa. E quando olho pro pavê, eles são tão íntegros que os amo profundamente.
Não que não queira uma mulher "pra mim", casar, ter filhos e netos e ser feliz até que a morte nos separe.
Mas como faz isso? Podemos nos estilhaçar, nos despedaçar, nos aterrorizar em prol de uma monogamia falida, e de uma relação de posse e amor que amarra em vez de libertar?
Essa postagem não é uma apologia ao amor livre, mas sim a outras formas de amar e ser amado e que pode incluir o tal do amor livre.
Como é isso? Existe amor que não é livre?
Eu quero a possibilidade de ir e vir.De ser quem eu sou. De amar como amo.
Quero a menina colorida e quero o pavê que me consola.
Quero a menina distraída e a outra aqui despida.
Quero amar livremente, quero ser amado de forma leve.
Não quero amor de amarras e não posso prender ninguém.
Quem sou eu pra decidir onde ir?
O mundo é maior que tudo e o amor é mais doce que um pavê.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

enquanto corro


Todos os dias eu corro.
Corro contra o tempo, corro da polícia, corro dos extratos bancários e dos extratos fraldários.
Quase todos os dias eu corro, no aterro.
E nessa corrida corro pra esvaziar a mente, pra aliviar a dor pra acalmar o peito apertado da corrida diária.
Todos os dias eu corro do medo de mim mesmo, da solidão no travesseiro e da vontade de sumir que aparece regularmente.
Quando eu corro no aterro fico sempre na esperança de encontrar com eLa, que vez por outra passeia por aquelas bandas na sua saia rodada acompanhada de um pequeno.
Corro como menino brincalhão tentando entender o impossível e querendo o impalpável.
Corro de mim mesmo em busca de amenizar minha solidão.
Correndo em busca de endorfina pra alegrar minhas tardes, correndo pelos cantos pra disfarçar minha dores.
Assim com corpo de quase atleta, uma mente quase vazia, uma possibilidade de vê-La e ainda uma saudade crescente continuo correndo em busca de achar a improvável resposta.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

vazio.


A busca pelos não paradigmas, a vontade de mudar tudo, o movimento em função do bem e quando me olho no espelho só o vazio se faz presente.
A tentativa desvairada de ser justo, o carinho desconcertado pela menina colorida, a dor no peito pela perda que escapa como transformação...e no fim de tudo o vazio.
O vazio que possibilita preenchimento.
O vazio que abre alternativas de pertencimento.
O vazio que machuca, atravessa e nega.
Converso com uma amiga, peço desculpas e sou desculpado.
Converso com um amigo recebo pedido de desculpas e desculpo.
Choro sozinho e vazio me recolho ao sono necessário.
Bebo um copo de água que fica vazio, encho-o de novo e um sorriso me faz sonhar.
Bebo um copo de leite que fica vazio, lavo-o e deixo virado de ponta cabeça.
Igual a mim, que devagar me entrego a dor da solidão,
Igual a mim que vazio me encho de álcool, gordura, e qualquer merda que cure a ansiedade.
Igual a mim que cheio de mim mesmo esvazio a solidão com sexo, drogas(lícitas) e rock(ilícito).
Cheio de dúvidas e vazio de verdades sigo meus dias sem a possibilidade de encontrar com eLa.
Cheio de dores e vazio de amores me corrompo no primeiro gole.
Me encho de batons vermelhos, calcinhas pretas e perfumes variados.
Cheio de mim mesmo penso neLa com carinho e volto ao meu silencio necessário.
Cheio de calor esvazio o corpo de roupas e deito na cama vazia, transformando a poesia em anestesia.
Como poeta desvairado crio mundos de fantasia pra disfarçar a nostalgia do vazio no meu peito.

domingo, 15 de janeiro de 2012

meu sonho e ela


Ela era linda, branca, sorriso incrível, leveza no olhar, leveza no falar, sua puerilidade se misturava a sua sagacidade de forma muito intrigante.
O gosto, o cheiro, o calor e a paz eram resultados desse encontro.
Vivíamos como se o mundo externo não existisse.
No encaixe perfeito, na tranquilidade desejada ela se entranhava na minha vida como água que se deixa formar em qualquer recipiente. Ela e eu num ininterrupto suar, lavar, amar, deixar, formar uma forma só! No encontro fortuito, na forma desejada, no que pode-se chamar de encontro.
De repente eu acordo, olho pro lado e ela está lá. Não...olho pro lado e ela não está lá. Sim...olho pro lado e ela está?
Não...depois de realmente acordado percebo minha solidão cotidiana.
Que consome a alma, que liberta e aprisiona no minuto seguinte.
Café com leite e solidão.
Bolachas, manteiga e solidão.
Música, trabalho e solidão.
Me debato contra mim mesmo, me assusto com dores do passado, me projeto no que não existe, planejo mais que o possível e a solidão grita anunciando o fim do sonho.
Acordo, olho pro lado e ela não está lá. Mesmo assim ela me olha com seus olhos sedutores e cheios de dúvidas. Você é muito... Sem deixar ela terminar a frase beijo sua boca gostosa, aperto seu corpo contra o meu e trememos juntos num tesão infindável, num orgasmo incomparável, numa vontade estúpida de entrar um no outro.
E entramos e saímos e entramos e saímos e entramos e saímos e entramos e saímos e hhhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
No grito descontrolado acordo sozinho na minha cama. Com meus mesmos medos do passado, com minha angústia parceira de cada dia, olho pro outro lado e a parede sorri pra mim.
Com minhas dores levanto e o chuveiro gelado me trás de volta.
Minha solidão e meu medo me deixam ali no chuveiro por minutos, saio molhado, coloco uma roupa confortável e me olho no espelho.
Sozinho abro meu computador e meus dedos dizem coisas a minha mente e minha mente responde coisas aos meus dedos.
Bebo uma água gelada e contemplo minha solidão!
Ela que tá na minha mente mente quando diz que existe. Eu que estou na mente dela minto quando digo que vou. E assim nessa brincadeira de forças a força maior me deixa ainda solitário, buscando o possível encontro das almas.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Do que passa na cabeça quando crio



Quando um artista se depara com o medo, parece que uma bifurcação se abre à sua frente e só dois caminhos são possíveis: um o paralisa, o torna frágil e assim destrói sua possibilidade artística; o outro o transforma, transgride, alimenta e com isso potencializa seu ato criativo.

Quando um artista encontra uma necessidade, ele parece não ver nada além da possibilidade de saciar sua sede.

Quando um artista encontra com outros artistas, os fluxos cotidianos os levam a crer que a única coisa que eles podem fazer juntos é criar.

ALGUÉM ME VIU POR AI? é fruto dessa mistura: um medo superado pela escolha de um caminho possível, a necessidade levada ao seu extremo e o encontro de artistas incansáveis, apaixonados e amigos.
A partir dessa alquimia, se materializa em nossa frente um "produto", seja ele belo ou não, agora, aqui, nesse espaço tempo nosso, onde a fugacidade se faz tão forte e presente, o que nos resta é a experiência, pois tudo o que fuja dela é possível que esteja morto.

* Escrevi esse texto para o programa do espetáculo "Alguém me viu por ai?" que esteve em cartaz em duas temporadas no Rio de Janeiro no ano de 2010. Como ainda acredito nessas idéias resolvi postar!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Tem uma coisa


Tem uma coisa na vida que é poesia. Ela é o abraço apertado do amigo saudoso, a vontade do que não existe e a saudade do nunca se foi.
Tem uma coisa na vida que é anestesia. Ela é o sinal de trânsito, a conta bancária, o poder desnecessário, a ambição desmedida e a fraqueza de espírito.
Tem uma coisa na vida que é a poesia...ela é o sorriso da criança, a magia da primeira vez, o som da flauta transversa e a possibilidade de felicidade.
Ela é o beijo molhado, o laranja do céu e o olhar da menina.
A poesia é vontade de estar bem, é roda gigante, maçã do amor e algodão doce.
Já a anestesia é gosto amargo, o medo da derrota, a estagnação.
Enquanto o mundo parece anestesiado a poesia trasborda em alegria, no sorriso despretensioso, na palavra amiga, no amor de mãe e na cumplicidade de pai.
Poesia é acordar sem hora pra dormir, mas principalmente dormir sem hora pra acordar, é caminhar sem destino, é tomar banho a dois, é bola de gude, bolha de sabão e vontade de mudar.
Tem uma coisa na vida que é poesia...ela é o sim inesperado, é dormir de conchinha, é café com leite, é pão na chapa.
Tem uma coisa na vida que é anestesia...ela é o trânsito parado, o chefe desesperado, a fila que não anda, o amor interessado e o relógio atrasado.
Já a poesia é whisky 12 anos, é música com companhia, é patinar no gelo, é pés descalços, é brinde, é mesa farta, é a simplicidade do dia a dia.
Enquanto o mundo parece insistir na anestesia
eu não desisto da poesia
que por mais que seja escorregadia
sempre chega em dia.
Como essa rima que de tão insistente
por vezes me deixa descontente
mas no desfecho latente
é a possibilidade da mente.
Tem uma coisa na vida que é a poesia.

sábado, 8 de outubro de 2011

metro e o jeitinho brasileiro.


Nas poucas vezes[ainda bem] que pego metro cheio nas estações finais é uma loucura.
Fico olhando aquelas pessoas se espremendo umas contra as outras pra tentar arrumar um lugar pra sentar.
E hoje percebi como isso é uma necessidade de "se dar bem" que o brasileiro tem.
Muitas vezes essas pessoas quase atropelam idosos, gestantes ou pessoas com criança de colo.
E lutando umas contra as outras e ambas contra o cansaço do dia a dia, tentam a qualquer custo sentar num banco até a parada mais próxima de suas casas.
Isso me levou a pensar que provavelmente numa posição de poder algumas dessas ou muitas, ou quase nós todos usaríamos de recursos não tão legais pra nos "darmos bem".
Como nossos queridos colegas que trabalham em Brasília que não perdem a oportunidade de desviar um pouquinho aqui, outro pouquinho ali, assim disfarçadamente como quem corre na frente de um deficiente e muitas vezes não cede o lugar.
E penso eu com meus botões: se essa mulher que corre aqui ao meu lado passando na frente da velhinha que tenta se deslocar em direção ao assento preferencial, se essa mulher pudesse sem que ninguém visse, trocar uma assinatura e de repente cair 1 milhão de reais na sua conta, ela não o faria?
A mania de se dar bem do brasileiro provavelmente extrapola os limites da cidadania, seja no metro do Rio de Janeiro, seja em Brasília onde tanto vemos o jeitinho brasileiro de se viver.
Mas e você? E eu? Estamos pensando sobre isso?
Não seria mais fácil acreditar na igualdade da vida em rede, como se estivéssemos todos juntos, transformando cada espaço, modificando cada olhar, brincando de ser deus.
Mas não, estamos quase sempre olhando pro lado e querendo nos dar bem.
E tudo bem se dar bem. Mas como isso se processa é algo potente como possibilidade reflexiva.
Que venham os frutos da nossa atuação como cidadão.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Deus sou eu

Hoje acordei e gritei pra todo mundo ouvir:
- Deus sou eu.
E sai por ai pintando o mundo como achava que deveria ser.
Conversei despretensiosamente com 4 crianças pelo caminho, a mais velha tinha 4 anos e descobri coisas inimagináveis que estão por trás de tanta sinceridade.
Na rua seguinte ajudei uma velhinha a pular um buraco aberto pelo trator e assim meio que sem querer conversamos um pouco e aprendi coisas inimagináveis que estão por trás da sabedoria da idade.
E assim fui seguindo meu caminho, tropeçando em pedras como um mortal e mudando o rumo das coisas com um Deus.
Numa rua perto do meu trabalho olhei pra um mendigo, fediiido que nem sei como consegui e ele estava bebendo uma cachaça. Sentei e com ele bebi, da mesma cachaça, no mesmo copo e tudo pareceu mudar. Conversamos sobre astrologia, bio política e coisas inimagináveis eu ouvi da boca de um cidadão que fedia como um gamba.
Ele aceitou o banho e lá em casa finalizamos um papo sobre as possibilidades de felicidade.
Nesse dia de Deus corri atrás de ladrão, pulei muros perigosos, conheci donas de casa, putas, senhores e belas mulheres.
Deus que sou tentei negar a máxima católica que diz que "todos somos filhos de Deus".
Eu não, eu sou o próprio Deus, porque assim eu acordei com vontade.
E nessa empreitada esquizofrênica olhei o mundo de outro ponto de vista, com o poder de Deus e com a simplicidade dele mesmo.
E segui seguindo, levando chuva onde tinha seca, levando sol onde tinha chuva, acalmando alguns corações atormentados, levando brisas pra aliviar o calor e desenhando bichinhos nas nuvens.
Utilizei-me do meu forte poder de sedução- porque algumas pessoas acreditaram que eu era Deus- e por isso fui escroto ao negar a benção a uma mulher, banalizei palavras de ordem deixando algumas pessoas confusas, outras angustiadas e algumas completamente revoltadas com "esse maluco de não sei lá onde", como gritavam alguns quando ao subir num palanque eu comecei a rezar e me masturbar ao mesmo tempo.
Quando percebi que a coisa não estava de brincadeira sai correndo e gritando:
- vocês não entendem nada, abram os olhos pra outras possibilidades, Deus sou eu e não esse ai da sua cabecinha medíocre.
E corri desesperadamente por 10, 20 minutos a fio sem saber pra onde ia nem porque corria.
De repente um choro voraz tomou conta do meu corpo, e assim fiquei por mais alguns minutos até que uma senhora de uns 65 anos se aproximou de mim, que estava exarcado de suor e lágrimas e disse:
- meu filho, o que te aflige? Pensa na real possibilidade de encontro com ti que assim estarás encontrando com Deus, já que ele está em cada um de nós. Deus sou eu e é você e somos todos juntos.
Eu então parei, olhei pra ela numa mistura de raiva, amor e confusão e disse:
- Deus sou eu.
Voltei pra casa e dormi leve como um Deus e frágil como um humano.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

MeDo.


Hoje eu acordei com medo. Ontem também. E aquele dia que tinha falado.
Um medo inescrupuloso me fez levantar num susto. Café com leite e medo.
Medo de dormir e de acordar, medo de amar e de ser amado.
Medo do tempo, da vida, da menina que chega, da saudade que vai.
E nessa torturante sensação comecei a brincar de fingir.
Fingir o que sentia e correr pra alegria.
E ai me vi fingindo, que era belo, que podia tudo, que não tinha angústia, que tava tudo lindo e que assim é que deveria ser...
Resultado: ontem acordei com medo.
E anteontem também, além daquele dia que tinha falado.
Escovei os dentes com raiva do medo da dor de dente.
E fiquei quieto, na minha, observando tudo e todos e sem ser observado.
E assim percebi o medo crescendo no meu coração calejado de tantos tormentos, na mente repleta de tanta teoria...o racional tentando explicar o que tá no lugar do inexplicável, tentando entender o que não tem nome, tentando rotular o que passa pelo metafísico e como um alquimista solitário explodo na mais sincera das respostas:
- não há resposta!
Ai fico cabisbaixo, com medo da menina que vem, de tanta gente em volta e tanto vazio por dentro.
Medo de machucar, de ser machucado, de correr os riscos e de errar, medo do sol e da lua e assim por isso tudo me sinto descolado, desconectado desse lugar que chamamos de mundo, nesse planeta que chamamos de Terra e as perguntas voltam: quem inventou tudo isso? quem deu nomes aos meus sentimentos? que dia é hoje? quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
Depois de algumas ligações de trabalho volto a escrever, com medo.
Medo da conta de telefone, da conta bancária, da dor de dente, da dor no peito, da vontade de sumir e de um dia conseguir entender.
Por instantes paro diante de mim mesmo, percebo a importância da solidão que devasta tudo, corroe o peito, mas lá no fundo trás uma serenidade.
Com essa serenidade respiro fundo, olho ao espelho e a lágrima escorre, canto aos quatros ventos porque dizem que quem canta seus males espanta.
E sinto o peito mais leve depois de deixar escorrer palavras pelos meus dedos.
E sinto frio na noite que chega.
E sinto a vontade da liberdade expressiva em toda sua plenitude.
E um sorriso me vem ao rosto, leve, sinto o medo partir.
Por descobrir quão vazio é o universo e diante da certeza das infinitas possibilidades.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

mais uma vez


Mais uma vez ando pelas ruas feito cachorro perdido tentando achar respostas descabidas no peito dilacerado.
Mais uma vez tento descontroladamente voar pelos ares feito pássaro solto brincando de velocidade.
Mais um vez tento diminuir o ritmo, entender a dor e superar o medo.
E como toda vez as respostas são perguntas, a dor insiste em ficar e o peito explode em diversas direções.
Como naquele dia que brincava de dizer verdades quando a mentira ficava escondida.
Igual àquela noite que no escuro da madrugada a menina pede abraço, o sorriso corre frouxo e a tranquilidade parece chegar.
Mais uma vez a doença, a saudade, a dificuldade e a sensação de não ser mais criança destroem com a utopia pueril.
Mais uma vez quebro os paradigmas e grito pros quatro cantos do mundo: "eu sou feliz".
E assim, logo em seguida mais uma vez entro em contradição e [des]acredito na felicidade.
Mais uma vez me sinto criança, jovem e alerta com tantas ideologias, cheio de poesias e com a certeza de um final feliz...
na manhã seguinte tenho preguiça, canso da vida e desperto sem vontade de reagir.
Nessa dicotomia geminiana me reconheço humano.
Na puerilidade existente a maturidade castrante.
Um dentro do outro. O outro dentro de um.
E como se assim fosse o normal, caminho a passos lentos e com a mente acelerada.
Percebendo mais uma vez que o imóvel não pertence a mim, por isso vou de lá pra cá e de cá pra qualquer lugar buscando na dicotomia possível a possibilidade de entendimento.
E na certeza do não entender, a felicidade do estar buscando.
Na hora da tristeza, a possibilidade de mudar de ideia.
No dia da preguiça, um banho frio.
Mais uma vez me desperdiço em mim mesmo, negando a inércia e me entregando ao movimento.
Sendo múltiplo de mim mesmo e um pra quem assim preferir.

domingo, 21 de agosto de 2011

um maluco, um pinguim e a princesa [palhaça] do castelo azul


Era uma vez um maluco. Um desses tipos excêntricos, que gostam de coisas estranhas, usam roupas esquisitas e não assistem televisão.
Era uma vez um pinguim. Que não gostava de frio e sempre se metia nas cobertas da sua dona.
E além deles existia também nesse reino, uma palhacinha que era também a princesa.
O maluco andava por ai sem eira nem beira, cantando aos quatro ventos, falando com criancinhas no meio da rua, abraçando árvores e fingindo que está feliz.
O pinguim, quase tão excêntrico quanto o maluco andava de quatro patas e pra comer um biscoito diferente deita no chão, rola que nem criança e olha como um bobão.
Já a princesa continuava fechada, cercada por muros gigantes, sempre muito bela, maquiada, linda, com um sorriso que contagia, porque todo contato que ela tinha com o mundo exterior era sempre divertido.
O maluco seguia seguindo seu rumo, meio distraído no meio do caminho, chorando ou cantando também fazia as pessoas sorrirem...brindava a vida com leveza e sua busca era sempre precisa.
A princesa um dia decidiu dar uma volta pelo vilarejo e com seu pinguim que nas quatro patas gritava "au,au" sentou num banco de praça. E ficou contemplando a bela tarde de primavera com sua flores coloridas, o céu azul e a vida que segue seguindo.
O maluco que vinha de algum lugar que não se sabe qual e ia para um outro tão desconhecido como, de repente olha pra princesa e sorri. Ela sem saber por que também sorri pra ele.
O maluco que também vive tão cercado de muros parece contagiado com aquele sorriso...e continua a sorrir. O pinguim olha desconfiado.
A princesa por um momento se retrai por ficar assustada. O maluco passa olhando e compra uma cerveja.
Quando de repente eles pareciam se perder um do outro o pinguim corre e começa a brincar com o maluco que na sua maluquice não tinha muito tato com os bichos pois prefere as pessoas. Mas de tão fofo que era o pinguim eles conseguem se conectar.
Em seguida a princesa se aproxima e fala: "vamos pinguim, tá na hora".
O maluco então olha pra princesa e se apresenta:
- prazer, eu sou o Bob.
E ela diz:
- prazer, eu sou a Maria.
Eles não conseguem parar de se olhar e sem mais nem menos começam a rir.
Depois desse riso eles conversaram e riram por horas. O maluco e a princesa que viviam em mundos tão distintos se encontraram no riso. E depois no sexo escondido. Depois no prazer da companhia...e assim seguiram por anos.
Diferentes e complementares.
Estranhos e cúmplices.
Antagônicos e sinceros: o maluco, o pinguim e a princesa[palhaça]

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

É


É o peito que aperta, é a lágrima que desce, é o sono que não vem.
É biscoito de chocolate, é cerveja gelada e é sorriso no rosto.
É amizade de verdade, é olho que brilha, é banho de cachoeira.
É a medida exata, a solidão ingrata e a rima disparada.
É a vontade que não passa, a dor que se assemelha e a pinga que acalma.
É a menina que vem, é a menina que vai, é a vez de quem tá chegando numa nova estação.
É o que não deve ser, é o que falta ser, é o que poderia ser.
É a falta de tempo, a falta de rumo, a falta de prumo e a falta que é só falta.
É o buraco que se abre, é a fome de comida, é a fome de partida.
Pra onde?
É o que não se sabe.
É assim todos os dias...
daquele jeito que parece mentira, café com leite pra aquecer e a felicidade pra esquecer.
É assim todas as noites...
cama vazia de parceria, a saudade que vem a revelia e a rima que escorrega como de dia.
É o sim que alivia, a necessidade em disritmia e o sexo que contagia.
É como se fosse ontem, o dia da poesia, porque parece que hoje só sobra melancolia.
É a rima invasiva, por mais que seja instintiva me deixa sem perspectiva.
É do que não é rimado que tô falando, do que vem assim:
como quem vai quando tem de ficar e do que fica quando tem de partir.
É da necessidade do amor, da estranheza do horror e da falta de pudor.
É assim quase todos os dias...
eu brincando de ser feliz e a felicidade sorrindo de longe.
É assim quase todas as noites...
eu chorando quem nem criança e o sorriso da esperança.
É assim quase sempre que escrevo...
falo como se fosse eu, mas na real eu não existo,
fingo que percebo algo e em seguida cadê?
É na necessidade desse eu que escrevo em busca de algo...
que provavelmente não é em si coisa nenhuma,
porque o que agora é, daqui a pouco deixa de ser.
É?
Talvez.
Sim?
Porque não.
Então vem agora que tudo parece estar sendo.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

meu nome não é Jarbas


Mais uma semana acaba e os destroços se espalham por entre os sins e os nãos.
Na dúvida recorrente repenso a possibilidade de alguma certeza e me entrego às interrogações.
Assim, como o amigo enfermo choro a dor de quem não vejo e plagiando a amiga generosa também "amo os que não conheço".
Acordar. Respirar. Interrogar. Estilhaçar. Morrer. Correr. Deixar. Poder. Não ser.
Verbos inúmeros tentam explicar a mim mesmo o que quero.
E sem a mínima possibilidade de entendimento desisto e penso: cada dia sei menos a respeito de quase todas as coisas.
Quase explodindo passo as mãos no cabelo e querendo o cabelo dela que tão longe está sinto o peito apertar.
Inescrupulosamente quero sexo, gozo, choro.
Quero voar sem destino e nunca mais voltar, deixar de lado o que conheço e descobrir algo novo.
Não quero mais isso...aqui não é o lugar de quem não cabe em si mesmo.
Não quero mais aquilo...ali não é o lugar de quem não é.
Não quero mais nada...quero a fluidez do impermanente, a possibilidade do inconstante, e a certeza da não verdade.
Quero a antítese como regra, a dicotomia como possibilidade e a dialética como minha alma.
Não quero mais isso, nem aquilo, nem aquela, nem tampouco a detrás.
Quero todas e nenhuma.
Quero tudo e nada.
Quero transitar entre ser, poder e estar.
Não quero mais isso que está parado, não quero estacionar minha mente que sempre mente pra mim relativizando minha potência.
Quero só dizer sim,
quero sorrir em vez de chorar,
quero sentir o coração palpitar,
quero viver pra morrer e quero morrer pra viver.
O que você espera de mim?
Seja qual for a sua resposta saiba que é impossível de ter, de entender.
Eu não quero estabelecer mais nada como real.
Eu não quero viver pra crer e a última coisa que eu tenho a dizer é:
meu nome não é Jarbas.

domingo, 17 de julho de 2011

Ela não é daqui



Ela não é daqui.
Ela não é daqui e eu também não.
Ela não é daqui porque nasceu ali,
enquanto que os daqui nasceram por lá.
Desse jeito, assim, ela é tão daqui quanto os de cá são de lá.
Ela é daqui porque ela sorri com alegria,
porque dali ela dança com poesia e toca em disritmia.
Ela pula, dança e sorri como os daqui
e depois me diz: "não, eu não sou daqui".
"-Eu também não." respondo em alegria.
Não sou daqui, e como ela olho o mundo,
com a alegria de quem recebe um sim,
com a poesia de quem responde um sim.
Eu e ela nos olhamos e assim seguimos,
com o peito aberto e o sorriso no rosto.
Na vontade do reencontro, a possibilidade do encontro.
No encontro assim estabelecido, a felicidade pelo acontecido.
Ela vai e eu fico. Eu fico e vou ao encontro do improvável.
Como aquele que se desfaz, me percebo como quem jaz.
Na certeza que há mais, sorrio.
A cantar pelo breve estar.
Com ela que não. Ao mesmo tempo que sim.
Descubro que não ser é o mesmo que tecer,
e que sendo dali a encontro por aqui.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

dormindo?


Fecho os olhos...estúpido! É a palavra que me vem à cabeça.
Olho pros lados em total [des]atenção e o vazio da cama vazia grita aos meus ouvidos.
Ai eu começo a pensar que eu preciso...
Preciso de uma carro, de uma tv nova, de uma máquina de lavar e de um abridor de vinhos.
Viro de lado, acomodo os pés gelados na manta quente, rezo um pai nosso tentando estabelecer meu vínculo com o metafísico e quando estou prestes a dormir penso que preciso de uma bicicleta nova, de um emprego, de um personagem desafiador, de uma mulher pra sexta, outra pra segunda e uma que seja pra sempre.
Penso que meus pais envelhecem, que eu não estou perto, que preciso de férias pra viajar, que preciso de dinheiro pra respirar e que assim de longe minha vida ta super legal!
Respiro fundo e uso a tática da meditação, concentro-me na respiração que vai ficando lenta, estabeleço um vínculo incrível com meu corpo que precisa daquele repouso.
E fico quieto, na minha, respirando por 3 minutos sem pensar em nada... ai...
Começa o momento decisões: decido que vou sair do curso chato que estou fazendo, decido ligar "praquela" mulher que conheci na praia, decido trocar de celular por um mais prático, decido que vou esquecer todos as minha paranoias contemporâneas e que vou realmente desacelerar.
Levanto. Vou ao banheiro fazer um xixi que não existe.
Volto e deito-me de lado agora trocando a posição na esperança de uma nova tentativa.
E sem perceber o momento exato durmo,2h depois do esperado.
De repente acordo, percebo que não preciso de quase nada pra viver, que as decisões são sempre a revelia e que de fato tá tudo sob controle.
Aperto a tecla soneca por 10 vezes antes de levantar e começo meu belo dia de forma simples e tranquila.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Matemática



Tem gente que insiste em dizer: 2 + 2 = 4.
- É mesmo? pergunta o ignorante do interior do Brasil.
E eu me pergunto: qual a matemática certa? Que necessidade é essa do homem que em si não precisa de números,mas na impetuosa busca pela verdade diz:
-Sim, claro que 2+2=4.
Eu quero é a possibilidade do erro, a disponibilidade pro talvez e a real concretude do não calculado.
O não calculado traz a possibilidade. A matemática trás a negatividade.
O não calculado abre. A matemática fecha.
O calculado desperta o amor como ele deve ser. A matemática o classifica.
Na inegável alegria de estar ali, a matemática me diz não. Ela, me diz: oi?
E assim, desclassificando a real necessidade da verdade eu penso: ainda bem!
Outro dia um homem me perguntou:
- você acredita em Deus?
E eu respondi que...matematicamente falando ele não existe, mas como ninguém até hoje conseguiu responder porque o céu é azul é muito provável que ele exista.
E o cara respondeu:
- o céu é azul porque não é verde.
Então eu perguntei pra ele:
- você acredita em Deus?
Ele ficou calado, virou as costas e saiu andando em direção ao horizonte.
E ficou o vazio da sua não resposta abrindo as possibilidades.
Da mesma forma eu falei pra menina:
- me olha nos olhos.
Ela respondeu:
- oi?
E ficou o vazio dos possíveis cálculos.
Nessas horas eu acredito mais nos poetas do que em Deus porque pra eles 2+2 também pode ser 5.