segunda-feira, 1 de agosto de 2011

É


É o peito que aperta, é a lágrima que desce, é o sono que não vem.
É biscoito de chocolate, é cerveja gelada e é sorriso no rosto.
É amizade de verdade, é olho que brilha, é banho de cachoeira.
É a medida exata, a solidão ingrata e a rima disparada.
É a vontade que não passa, a dor que se assemelha e a pinga que acalma.
É a menina que vem, é a menina que vai, é a vez de quem tá chegando numa nova estação.
É o que não deve ser, é o que falta ser, é o que poderia ser.
É a falta de tempo, a falta de rumo, a falta de prumo e a falta que é só falta.
É o buraco que se abre, é a fome de comida, é a fome de partida.
Pra onde?
É o que não se sabe.
É assim todos os dias...
daquele jeito que parece mentira, café com leite pra aquecer e a felicidade pra esquecer.
É assim todas as noites...
cama vazia de parceria, a saudade que vem a revelia e a rima que escorrega como de dia.
É o sim que alivia, a necessidade em disritmia e o sexo que contagia.
É como se fosse ontem, o dia da poesia, porque parece que hoje só sobra melancolia.
É a rima invasiva, por mais que seja instintiva me deixa sem perspectiva.
É do que não é rimado que tô falando, do que vem assim:
como quem vai quando tem de ficar e do que fica quando tem de partir.
É da necessidade do amor, da estranheza do horror e da falta de pudor.
É assim quase todos os dias...
eu brincando de ser feliz e a felicidade sorrindo de longe.
É assim quase todas as noites...
eu chorando quem nem criança e o sorriso da esperança.
É assim quase sempre que escrevo...
falo como se fosse eu, mas na real eu não existo,
fingo que percebo algo e em seguida cadê?
É na necessidade desse eu que escrevo em busca de algo...
que provavelmente não é em si coisa nenhuma,
porque o que agora é, daqui a pouco deixa de ser.
É?
Talvez.
Sim?
Porque não.
Então vem agora que tudo parece estar sendo.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

meu nome não é Jarbas


Mais uma semana acaba e os destroços se espalham por entre os sins e os nãos.
Na dúvida recorrente repenso a possibilidade de alguma certeza e me entrego às interrogações.
Assim, como o amigo enfermo choro a dor de quem não vejo e plagiando a amiga generosa também "amo os que não conheço".
Acordar. Respirar. Interrogar. Estilhaçar. Morrer. Correr. Deixar. Poder. Não ser.
Verbos inúmeros tentam explicar a mim mesmo o que quero.
E sem a mínima possibilidade de entendimento desisto e penso: cada dia sei menos a respeito de quase todas as coisas.
Quase explodindo passo as mãos no cabelo e querendo o cabelo dela que tão longe está sinto o peito apertar.
Inescrupulosamente quero sexo, gozo, choro.
Quero voar sem destino e nunca mais voltar, deixar de lado o que conheço e descobrir algo novo.
Não quero mais isso...aqui não é o lugar de quem não cabe em si mesmo.
Não quero mais aquilo...ali não é o lugar de quem não é.
Não quero mais nada...quero a fluidez do impermanente, a possibilidade do inconstante, e a certeza da não verdade.
Quero a antítese como regra, a dicotomia como possibilidade e a dialética como minha alma.
Não quero mais isso, nem aquilo, nem aquela, nem tampouco a detrás.
Quero todas e nenhuma.
Quero tudo e nada.
Quero transitar entre ser, poder e estar.
Não quero mais isso que está parado, não quero estacionar minha mente que sempre mente pra mim relativizando minha potência.
Quero só dizer sim,
quero sorrir em vez de chorar,
quero sentir o coração palpitar,
quero viver pra morrer e quero morrer pra viver.
O que você espera de mim?
Seja qual for a sua resposta saiba que é impossível de ter, de entender.
Eu não quero estabelecer mais nada como real.
Eu não quero viver pra crer e a última coisa que eu tenho a dizer é:
meu nome não é Jarbas.

domingo, 17 de julho de 2011

Ela não é daqui



Ela não é daqui.
Ela não é daqui e eu também não.
Ela não é daqui porque nasceu ali,
enquanto que os daqui nasceram por lá.
Desse jeito, assim, ela é tão daqui quanto os de cá são de lá.
Ela é daqui porque ela sorri com alegria,
porque dali ela dança com poesia e toca em disritmia.
Ela pula, dança e sorri como os daqui
e depois me diz: "não, eu não sou daqui".
"-Eu também não." respondo em alegria.
Não sou daqui, e como ela olho o mundo,
com a alegria de quem recebe um sim,
com a poesia de quem responde um sim.
Eu e ela nos olhamos e assim seguimos,
com o peito aberto e o sorriso no rosto.
Na vontade do reencontro, a possibilidade do encontro.
No encontro assim estabelecido, a felicidade pelo acontecido.
Ela vai e eu fico. Eu fico e vou ao encontro do improvável.
Como aquele que se desfaz, me percebo como quem jaz.
Na certeza que há mais, sorrio.
A cantar pelo breve estar.
Com ela que não. Ao mesmo tempo que sim.
Descubro que não ser é o mesmo que tecer,
e que sendo dali a encontro por aqui.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

dormindo?


Fecho os olhos...estúpido! É a palavra que me vem à cabeça.
Olho pros lados em total [des]atenção e o vazio da cama vazia grita aos meus ouvidos.
Ai eu começo a pensar que eu preciso...
Preciso de uma carro, de uma tv nova, de uma máquina de lavar e de um abridor de vinhos.
Viro de lado, acomodo os pés gelados na manta quente, rezo um pai nosso tentando estabelecer meu vínculo com o metafísico e quando estou prestes a dormir penso que preciso de uma bicicleta nova, de um emprego, de um personagem desafiador, de uma mulher pra sexta, outra pra segunda e uma que seja pra sempre.
Penso que meus pais envelhecem, que eu não estou perto, que preciso de férias pra viajar, que preciso de dinheiro pra respirar e que assim de longe minha vida ta super legal!
Respiro fundo e uso a tática da meditação, concentro-me na respiração que vai ficando lenta, estabeleço um vínculo incrível com meu corpo que precisa daquele repouso.
E fico quieto, na minha, respirando por 3 minutos sem pensar em nada... ai...
Começa o momento decisões: decido que vou sair do curso chato que estou fazendo, decido ligar "praquela" mulher que conheci na praia, decido trocar de celular por um mais prático, decido que vou esquecer todos as minha paranoias contemporâneas e que vou realmente desacelerar.
Levanto. Vou ao banheiro fazer um xixi que não existe.
Volto e deito-me de lado agora trocando a posição na esperança de uma nova tentativa.
E sem perceber o momento exato durmo,2h depois do esperado.
De repente acordo, percebo que não preciso de quase nada pra viver, que as decisões são sempre a revelia e que de fato tá tudo sob controle.
Aperto a tecla soneca por 10 vezes antes de levantar e começo meu belo dia de forma simples e tranquila.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Matemática



Tem gente que insiste em dizer: 2 + 2 = 4.
- É mesmo? pergunta o ignorante do interior do Brasil.
E eu me pergunto: qual a matemática certa? Que necessidade é essa do homem que em si não precisa de números,mas na impetuosa busca pela verdade diz:
-Sim, claro que 2+2=4.
Eu quero é a possibilidade do erro, a disponibilidade pro talvez e a real concretude do não calculado.
O não calculado traz a possibilidade. A matemática trás a negatividade.
O não calculado abre. A matemática fecha.
O calculado desperta o amor como ele deve ser. A matemática o classifica.
Na inegável alegria de estar ali, a matemática me diz não. Ela, me diz: oi?
E assim, desclassificando a real necessidade da verdade eu penso: ainda bem!
Outro dia um homem me perguntou:
- você acredita em Deus?
E eu respondi que...matematicamente falando ele não existe, mas como ninguém até hoje conseguiu responder porque o céu é azul é muito provável que ele exista.
E o cara respondeu:
- o céu é azul porque não é verde.
Então eu perguntei pra ele:
- você acredita em Deus?
Ele ficou calado, virou as costas e saiu andando em direção ao horizonte.
E ficou o vazio da sua não resposta abrindo as possibilidades.
Da mesma forma eu falei pra menina:
- me olha nos olhos.
Ela respondeu:
- oi?
E ficou o vazio dos possíveis cálculos.
Nessas horas eu acredito mais nos poetas do que em Deus porque pra eles 2+2 também pode ser 5.

sábado, 21 de maio de 2011

Inferno Astral?



[Booooooommmmmmmmmm] Entenda essa palavra como uma sonoplastia ridícula daqueles filmes hollywoodianos ridículos.
É esse som que emana do meu peito igualmente ridículo.
Largo meu capeletti aos quatro queijos esfriando na mesa pra não explodir em lágrimas e explodo em palavras.
Palavras de um peito em chamas e que irresponsavelmente se diz feliz.
Tomo um gole de mate(com limão) igual a menina que espia de longe e olho as janelas que aparecem no meu quarto.
Pessoas parecem felizes ao meu lado. Outras parecem nem estar ali.
Como pode uma pessoa estar nesse mundo assim? Ao Deus dará? Como se tudo isso fosse normal?
Na imagem do amigo que transita entre o ser e o não ser, me sinto fora.
Meu celular toca e no que entendemos como inferno astral me aproprio do paraíso astral.
Porque transito entre a mais profunda dicotomia. E isso me faz bem!
[Booooooommmmmmmm] não consigo entender essa coisa...de estar sempre mudando e de estar sempre chorando e de estar sempre sorrindo.
Meu celular pára de tocar e o amigo espera uns minutos até meu retorno.
E eu espero o que?
O que o mundo tem que ainda não vi?
Eu quero o mundo novo em sua antítese enlouquecedora.
Cadê o homem que estava aqui?
Mudo de opinião, troco de idéia e percebo que ainda assim nada parece mudar ao meu lado.
No jogo de xadrez o Rei é o mais poderoso mas só anda um casa por vez!
É assim que me sinto...como um Rei do jogo de xadrez...cheio de poder e com as mãos atadas.
As vezes acho que "não vou me adaptar" igual o poeta que grita na sua melodia.
Mais um gole de mate, as palavras fluem em meus dedos e eu me sinto desafogar.
No colo da menina finjo felicidade, o vazio inevitavelmente volta e a menina normalmente não.
Porque há outra, invadindo aquele espaço e o meu espaço, mesmo sem nunca preenche-lo.
Qual é o meu espaço?
Na busca por amparo o gozo se repete compulsivamente.
Gozo de trabalho. Gozo de amigos. Gozo pela falta e até o gozo de esperma.
Na minha dicotomia só não há espaço pra trocar amor por ódio.
O amor sempre fica e essa dor sempre volta.
O amor incompreendido, o amor distraído, o amor invadido e infelizmente falido.
Na palavra tão pequena a resposta tão grande.
Como uma ampulheta que deixa a areia escorrer entre seus pólos, escorro também!
Sempre tentando a fluidez que permite a possibilidade de encontro.
E o encontro se dá pelo amor. É isso que eu quero. O AMOR na sua forma mais sublime.
Transformando a todos nós em transmissores dessa energia vital.
Mas como não sou o maior exemplo explodo nessa dor, por que ainda estou na superfície dessa matéria que parece nos abraçar quando na verdade nos sufoca.
Assim, percebo minha maior contradição:
A matéria que me sufoca, mas é amada.
A menina que me contempla, mas é a errada.
O amigo que me sorri, mas não resolve.
A felicidade que entra, mas não fica.
A possibilidade que acalma, mas não define.
A transformação que é necessária, mas não entende.
A paz que é esperada, mas não é abraçada.
No fim disso tudo repito o poeta, que na sua melodia me traduz com maestria:
"NÃO VOU ME ADAPTAR".

terça-feira, 17 de maio de 2011

URBANÓIDES


O homem. O homem no mundo. O homem numa cidade do mundo.
Filas, trânsito, barulho e a eterna necessidade de aceitação.
Luzes de faróis atravessam a mente, paranóias incessantes atravessam a gente.
Corre, sua, e o silêncio parece impossível.
A cidade no homem como uma coluna vertebral quebrada.
Impondo sua força, tirando autonomia.
Homens robóticos determinando verdades robóticas e o sensível passa despercebido.
'O que será que estou fazendo aqui?' Pergunta o enfermo na casa de recuperação para "malucos".
Enquanto isso chefes malucos impõe diretrizes reais diante de um são funcionário.
A luta desvairada por sucesso, a correria diária por dinheiro, a necessidade rebelde de dizer não cada dia mais sufocada, desarticulada e padronizada em sins falsários.
Onde a natureza parece dizer adeus, os homens brincam de deuses e criam outros mundos.
Mundo tecnológico, mundo virtual e o funcionário do mês de são só tem o sim.
Não. Digo não à pressa que me sufoca. Não. Digo não ao que é enlatado.
O homem no mundo e suas milhões de possibilidades sempre negadas pelos nãos que começam quando criança.
E a possibilidade do outro lado? E o olhar por outros ângulos?
Quero mais é reconhecer o homem no andróide. E negar e seguir e redefinir.
Padrão azul. A última chance. Um pouco mais rápido.
Frases parecem determinar o que nós acreditamos.
Capitalismo. Esquizofrenia. A luta por não enlouquecer é a mesma luta por enriquecer.
NÃO. digo não e recebo sim? Não, digo não e por enquanto recebo não.
E aqui do lado, um pouco mais pra esquerda de onde se lê...visualizo outra possibilidade.
E nela acredito. E digo sim.
Há outras possibilidades de felicidade. Olhe e veja. Eu consigo enxergá-la.
Ainda não cheguei lá. E triste continuo a procurar. Feliz só pra disfarçar!
Afinal de contas sorria, você está sendo filmado!