sexta-feira, 25 de março de 2011

Desacelerar!


SEGUNDA – FEIRA: 10h. Acordo. Coloco uma música. Tomo um café com bolachas e depois um rápido banho. 10h30min o ônibus. Que saco, não passa. Chegou. Entrei, paguei minha passagem a uma trocadora que mais parecia um zumbi. 10h33min. Olhei as pessoas, que não me olhavam e sentei no banco alto do lado direito de quem entra. E fiquei quieto, na minha observando todos e sem ser observado. Tinha uma senhora de uns 65 anos, com uma camisa estampada, uma calça branca, um lenço na cabeça e uma sacola de feira. No banco junto da trocadora, um casal de uns 40 anos, uma mulher sozinha dois bancos à minha frente, outra mulher de uns 35 anos com uma bebe na mão, a coisa mais gorda de rosa, algumas pessoas atrás de mim e do meu lado sentou uma menina de uns quinze anos. Com um uniforme de escola branco, uma saia azul, uma mochila no colo e uma fivela que prendia o cabelo ela estava pensando. E eu fiquei pensando: o que será que ela deve estar pensando? Pra onde ela ta indo? De onde ta vindo? Onde ela moraria? Quem seriam seus pais, sua família? Estava triste ou feliz? Nesse exato momento do meu raciocínio e quando eu ia conversar com ela entra um garoto vendendo balas. Pouco mais de treze anos, rosto abatido pelo cansaço, pouca esperança em seus olhos. Eu compro algumas e desço do ônibus. 11h. Chego a um teste. Espero. Espero. Espero. Espero. 12h30min corro pra faculdade. 13h10min acho tudo sem sentido. 14h10min penso em desistir. 15h10min. Recupero as forças. 15h20min. Lembro dos meus amigos de infância. 16h. Sinto um pingo de chuva. 16h30min. Uma geleira derrete. 17h. Como um chocolate. 17h10min. Como outro chocolate. 17h30min tenho uma reunião.
20h. Ensaio. 24h. Chego em casa. 01h30min. Deito pra descansar. 01h35min. Solto uma flatulência. 01h40min. Nossa to morto de cansado.02h. Enfim consigo dormir.

>> texto do espetáculo Alguém em viu por aí? de Jarbas Albuquerque que esteve em cartaz nos Teatros Maria Clara Machado e Glaucio Gil em 2010.

>> vídeo Brecha Coletivo

domingo, 20 de março de 2011

João Rimado


O nome dele é João. Ele dança coco, samba e forró.

Pula pelos ares em felicidade quase todos os dias. Acredita?
Ele corre pelas calçadas alegrando os transeuntes.
Ele grita pros quatro cantos seus amores e desamores.
-"É preferível sofrer de amor do que de [des]AMOR". diz o João com um sorriso nos olhos.

Ele acredita em fantasmas, em papai noel, em santas e em putas.
João é assim, vai levado pela vida, afetado pelas meninas, pela lua, pela brisa do mar.
As vezes ele até chora, mas é por pouco tempo.
E assim como moleque bobo ele vai cantando.
Assim como menino vadio ele vai andando, com pouca coisa pra guardar, com quase nada pra levar, simplesmente pairando no que vem de lá!

No colo da menina
a felicidade clandestina
como quem brinda a vida
através do sorriso que convida.

Até na rima mais descabida
na certeza mais escondida
a beleza se vê contida
na necessidade permitida.

O João é assim, um menino-homem que dança coco, samba e forró.

Na levada da vida a tristeza passa longe
quando acorda de manhã parece que é monge?
E nessa rima insistente
ele parece contente
por que ali de repente
canta um repente.

É assim que ele segue(ouve-se ao fundo uma música, leve).

Dançando com a leveza de um bailarino
ouvindo canções de ninar
afetando-se com a paz do luar
[re]descobrindo o eterno menino.

>> ofereço a Fábio e João. Por nosso momento.

sexta-feira, 18 de março de 2011

luar


Abro a página do meu blog e ainda com o amargo do suco de limão que acabo de tomar, questiono essa postagem.
Meus dedos soltos vão alcançado as teclas e num fluxo desenfreado as palavras vão saindo do meu consciente ou será inconsciente?
A luz da lua atravessa meu quarto de forma esplendorosa e essa energia lunar atravessa meu peito, alma e corpo de forma avassaladora.
Uma solidão inescrupulosa me invade. Mas como?
Amigos, família, mulheres, colegas, trabalho.
Num montante de pessoas, coisas e afazeres a solidão invade tudo quebrando a sensação de bem-estar tão buscada.
A nostalgia disfarçada de gripe me pega pelo braço e eu a ela me entrego.
Como um prato (grande) de salada, ouço Caetano pra resgatar o exílio e a revolução.
A revolução que busco a cada dia e o exílio na solidão do travesseiro sem ela.
A lua segue seu caminho e a luz que emana vai trocando de lugar, mas a sensação deixada por ela fica.
Fica a noite toda enquanto eu me refugio num prato (pequeno) de purê de batatas, arroz e frango feito carinhosamente por mãos femininas que auxiliam nas questões da casa vez por outra.
Caetano canta "meu bem, meu mal" eu questiono essa postagem mais uma vez, tomo um antigripal, como uma colher (média) de doce de leite e na vontade inescrupulosa de voar e gritar me contento com uma ligação pra um amigo querido.

Ass. Raul

terça-feira, 15 de março de 2011

...


O homem. O homem no mundo e suas incontroláveis sensações.
O homem no mundo explode a cada segundo na rima desnecessária da poesia que escorre pelos dedos.
O homem no mundo.Eu.Ele.Eu?
Eu diante de mim mesmo na mais profunda dor. Não. Ele. Quis dizer(reticência)
Eu diante de mim mesmo e do do mundo na mais profunda.
Eu.Ele. Ele diante do mundo na sensação de mais profundo amor.
Nas inúmeras perguntas, a poesia como resposta.
Na suspeita da possibilidade a descoberta da mais bela lealdade.
Com ele.
Com o outro.
Com o outro eu?
Mas se nem eu sei sobre mim, imagina o outro eu. Onde?
Na beleza passageira a felicidade de sentir frio na barriga e dançar e pular e transar e sentir como há muito tempo não sentia.
O homem eu ele na incansável busca de prazer efêmero, do gozo aliviante, do peito ofegante, da mão da amante na rima irritante.
Diante de.
De costas para.
A busca de algo que acalme e retire sutilmente
essa dor de dentro do peito amante (reticência)
Reticências e a possibilidade,
abrindo caminho diante da vida que passa.
A possibilidade vem como alívio,
as reticências vêm como abertura.
Não digo ponto final, nem exclamação, nem ponto e vírgula digo...
Abrindo o peito pro ar entrar e a angústia sair eLLa me olha em despedida.
E a outra eLa? Essa me olha em suspenção.
Eu olho pra ela e penso(reticências)

Reticência s.f. Supressão ou omissão voluntária de uma coisa que poderia ou deveria ter sido dita,a própria coisa omitida.

segunda-feira, 14 de março de 2011

brasilidades


Acordo. tomo uma caneca(grande) de café com leite. Mando e respondo emails. Posto bobagens no facebook e começo meu dia.
Desço veloz com minha bicicleta a pequena ladeira que me separa do terreno plano. Coloco roupas de ensaio, alongo o corpo, aqueço a voz, faço brincadeiras engraçadas e outras nem tanto. Divirto-me com meus amigos enquanto trabalhamos no que amamos. Como dizia o poeta: "ser artista é o céu e o inferno de cada dia".
Acabo o ensaio, pego minha bicicleta e vou à praia. Mar. Mate. Corro 50 minutos batendo meu recorde. A endorfina libera a sensação de euforia que se assemelha ao que chamamos de felicidade.
Mergulho mais uma vez, flerto com a menina que passa.
Amigos me confortam, volto pra casa, leio meu primeiro livro do Deleuze e me sinto mais potente por isso. Por que?
Tomo uma vitamina de banana com aveia e leite em pó e durmo.
Outro dia. Acordo. Tomo o mesma caneca de café e embarco atrasado na central do Brasil.
Central deriva de centro? Estaria eu no centro do Brasil?
O trem balança muito mais que o metro e eu vou tentando entender aquele movimento.
Movimento de pessoas diferentes de mim, movimento de homens e mulheres que trabalham 8, 9, 10 horas por dia.
No rosto a expressão de cansaço e as olheiras comprovam minhas suspeita.
Olho todos. Olho muito. Viajo literalmente naquelas possibilidades de vida.
Um ambulante deficiente se irrita com a porta ,que por estar quebrada, não abre.
Fico ali, olhando tudo e todos. Nas suas diferenças e suas igualdades.
Como o Brasil é extenso. Esse Rio de Janeiro que tanto amo trás uma infinidade de realidades paralelas.
Onde está a praia e o mate? Cadê a garota de Ipanema? Como eles fazem pra viver sem bicicleta?
E na minha imbecilidade burguesa - por mais que essa palavra seja hoje inadequada e não exprima o real - estabeleço padrões e fico ali respirando aqueles ares.
O ambulante passa mais calmo, um homem machucado tentar se organizar na apertada cadeira e começo a visualizar brilhos nos olhos.
Sorrisos e uma leveza quase agressiva diante de tal aspecto daquele ambiente.
Num Brasil em que tudo é meio cinza, onde o Rio de Janeiro não tem praia,nem mate de tonel, há uma leveza de um povo apaixonado pela vida.
Um povo que ri a toa e que no sorriso algumas vezes sem dentes, demonstra a poesia de uma vida diferente.
É a possibilidade de viver de outras formas e ainda assim ser leve, trazendo em si uma tranqüilidade única dos sábios, que realmente acreditam no que podem.
Assim que o povo segue, com suas vidas corridas, sofridas e ao mesmo tempo alegres e sorridentes.
Viva ao povo brasileiro e sua inconseqüente alegria no grito de gol, na piada escancarada, na esperança que se vê nesses olhos e no sorriso verdadeiro que vem do fundo da alma.

sábado, 12 de março de 2011

E.S.T.A.C.A.T.O.


Completamente despido.Insone. Tranqüilo. Quase chegando.
É.Assim.Que.Completamente despido em relação a vida. Quase chegando?
[som de uma forte inspiração] E respiro aliviado. Quando a pequenez vem. Assim.Desse jeito.Com relação a morte.
Águas mostram força. Penso e sempre pergunto. Resposta? Quase chegando...

terça-feira, 8 de março de 2011

atravessamentos de um folião


Estupidamente bêbado, com sapatos que se misturam à lama no chão vou andando entre pessoas, super heróis e ambulantes.
Com a roupa encharcada de suor e chuva sigo cortando o vento com o passo de frevo ou o samba no pé.
Com a energia que parece vir da anfetamina sigo descontroladamente buscando o olhar.
Cruzo com um, com outro e no terceiro páro.
O olhar parece transfigurar o lugar.
O olhar conforta a ansiedade e a passos largos a lama se mistura aos sapatos quando chego perto do rosto dela.
Sinto sua respiração ao olhar frente a frente.
Assim, segundos se passam, um sorriso permissivo e milésimos de segundos separam as bocas até que...[silêncio] Um grande silêncio invade a barulhenta orquestra.
Línguas se misturam na saliva, na chuva, no acalento. Falsamente contemplado, pareço criar uma zona autônoma temporária com a bailarina de negro.
Uma suspensão temporal e espacial me leva a outro lugar por minutos e sem querer parar com aquilo seguimos. Nos conhecendo falsamente.
E de repente... páro, levanto a cabeça e o mundo volta a girar. A música a entrar, o ambulante a gritar e os personagens a passar.
Com um sorriso permissivo saio em despedida. Olho a bela bailarina seguir na sua ponta e eu feminino como minha roupa sigo para o lado oposto.
E começo tudo de novo: rasgo o vento ao som do frevo, ando por entre pessoas, palhaços e diabos, quebro as barreiras da comunicação e a mulher maravilha liberta de qualquer pudor católico me olha...eu também olho...e a passos largos e entre os pingos de chuva chego perto do rosto dela...
E assim sigo, falsamente, hipnoticamente, intensamente refugiado na licença poética do carnaval, liberto das mazelas do dia-a-dia, como se o mundo estivesse parado, só esperando a quarta-feira de cinzas.
E ela chega, trazendo de volta o choro verdadeiro, a angústia não superada e a esperança na eterna possibilidade do sorriso.