terça-feira, 8 de março de 2011

atravessamentos de um folião


Estupidamente bêbado, com sapatos que se misturam à lama no chão vou andando entre pessoas, super heróis e ambulantes.
Com a roupa encharcada de suor e chuva sigo cortando o vento com o passo de frevo ou o samba no pé.
Com a energia que parece vir da anfetamina sigo descontroladamente buscando o olhar.
Cruzo com um, com outro e no terceiro páro.
O olhar parece transfigurar o lugar.
O olhar conforta a ansiedade e a passos largos a lama se mistura aos sapatos quando chego perto do rosto dela.
Sinto sua respiração ao olhar frente a frente.
Assim, segundos se passam, um sorriso permissivo e milésimos de segundos separam as bocas até que...[silêncio] Um grande silêncio invade a barulhenta orquestra.
Línguas se misturam na saliva, na chuva, no acalento. Falsamente contemplado, pareço criar uma zona autônoma temporária com a bailarina de negro.
Uma suspensão temporal e espacial me leva a outro lugar por minutos e sem querer parar com aquilo seguimos. Nos conhecendo falsamente.
E de repente... páro, levanto a cabeça e o mundo volta a girar. A música a entrar, o ambulante a gritar e os personagens a passar.
Com um sorriso permissivo saio em despedida. Olho a bela bailarina seguir na sua ponta e eu feminino como minha roupa sigo para o lado oposto.
E começo tudo de novo: rasgo o vento ao som do frevo, ando por entre pessoas, palhaços e diabos, quebro as barreiras da comunicação e a mulher maravilha liberta de qualquer pudor católico me olha...eu também olho...e a passos largos e entre os pingos de chuva chego perto do rosto dela...
E assim sigo, falsamente, hipnoticamente, intensamente refugiado na licença poética do carnaval, liberto das mazelas do dia-a-dia, como se o mundo estivesse parado, só esperando a quarta-feira de cinzas.
E ela chega, trazendo de volta o choro verdadeiro, a angústia não superada e a esperança na eterna possibilidade do sorriso.

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