
Acordo. tomo uma caneca(grande) de café com leite. Mando e respondo emails. Posto bobagens no facebook e começo meu dia.
Desço veloz com minha bicicleta a pequena ladeira que me separa do terreno plano. Coloco roupas de ensaio, alongo o corpo, aqueço a voz, faço brincadeiras engraçadas e outras nem tanto. Divirto-me com meus amigos enquanto trabalhamos no que amamos. Como dizia o poeta: "ser artista é o céu e o inferno de cada dia".
Acabo o ensaio, pego minha bicicleta e vou à praia. Mar. Mate. Corro 50 minutos batendo meu recorde. A endorfina libera a sensação de euforia que se assemelha ao que chamamos de felicidade.
Mergulho mais uma vez, flerto com a menina que passa.
Amigos me confortam, volto pra casa, leio meu primeiro livro do Deleuze e me sinto mais potente por isso. Por que?
Tomo uma vitamina de banana com aveia e leite em pó e durmo.
Outro dia. Acordo. Tomo o mesma caneca de café e embarco atrasado na central do Brasil.
Central deriva de centro? Estaria eu no centro do Brasil?
O trem balança muito mais que o metro e eu vou tentando entender aquele movimento.
Movimento de pessoas diferentes de mim, movimento de homens e mulheres que trabalham 8, 9, 10 horas por dia.
No rosto a expressão de cansaço e as olheiras comprovam minhas suspeita.
Olho todos. Olho muito. Viajo literalmente naquelas possibilidades de vida.
Um ambulante deficiente se irrita com a porta ,que por estar quebrada, não abre.
Fico ali, olhando tudo e todos. Nas suas diferenças e suas igualdades.
Como o Brasil é extenso. Esse Rio de Janeiro que tanto amo trás uma infinidade de realidades paralelas.
Onde está a praia e o mate? Cadê a garota de Ipanema? Como eles fazem pra viver sem bicicleta?
E na minha imbecilidade burguesa - por mais que essa palavra seja hoje inadequada e não exprima o real - estabeleço padrões e fico ali respirando aqueles ares.
O ambulante passa mais calmo, um homem machucado tentar se organizar na apertada cadeira e começo a visualizar brilhos nos olhos.
Sorrisos e uma leveza quase agressiva diante de tal aspecto daquele ambiente.
Num Brasil em que tudo é meio cinza, onde o Rio de Janeiro não tem praia,nem mate de tonel, há uma leveza de um povo apaixonado pela vida.
Um povo que ri a toa e que no sorriso algumas vezes sem dentes, demonstra a poesia de uma vida diferente.
É a possibilidade de viver de outras formas e ainda assim ser leve, trazendo em si uma tranqüilidade única dos sábios, que realmente acreditam no que podem.
Assim que o povo segue, com suas vidas corridas, sofridas e ao mesmo tempo alegres e sorridentes.
Viva ao povo brasileiro e sua inconseqüente alegria no grito de gol, na piada escancarada, na esperança que se vê nesses olhos e no sorriso verdadeiro que vem do fundo da alma.
Viva Você..que me fez abrir um sorriso bobo ao te ler.
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