segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Do que passa na cabeça quando crio



Quando um artista se depara com o medo, parece que uma bifurcação se abre à sua frente e só dois caminhos são possíveis: um o paralisa, o torna frágil e assim destrói sua possibilidade artística; o outro o transforma, transgride, alimenta e com isso potencializa seu ato criativo.

Quando um artista encontra uma necessidade, ele parece não ver nada além da possibilidade de saciar sua sede.

Quando um artista encontra com outros artistas, os fluxos cotidianos os levam a crer que a única coisa que eles podem fazer juntos é criar.

ALGUÉM ME VIU POR AI? é fruto dessa mistura: um medo superado pela escolha de um caminho possível, a necessidade levada ao seu extremo e o encontro de artistas incansáveis, apaixonados e amigos.
A partir dessa alquimia, se materializa em nossa frente um "produto", seja ele belo ou não, agora, aqui, nesse espaço tempo nosso, onde a fugacidade se faz tão forte e presente, o que nos resta é a experiência, pois tudo o que fuja dela é possível que esteja morto.

* Escrevi esse texto para o programa do espetáculo "Alguém me viu por ai?" que esteve em cartaz em duas temporadas no Rio de Janeiro no ano de 2010. Como ainda acredito nessas idéias resolvi postar!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Tem uma coisa


Tem uma coisa na vida que é poesia. Ela é o abraço apertado do amigo saudoso, a vontade do que não existe e a saudade do nunca se foi.
Tem uma coisa na vida que é anestesia. Ela é o sinal de trânsito, a conta bancária, o poder desnecessário, a ambição desmedida e a fraqueza de espírito.
Tem uma coisa na vida que é a poesia...ela é o sorriso da criança, a magia da primeira vez, o som da flauta transversa e a possibilidade de felicidade.
Ela é o beijo molhado, o laranja do céu e o olhar da menina.
A poesia é vontade de estar bem, é roda gigante, maçã do amor e algodão doce.
Já a anestesia é gosto amargo, o medo da derrota, a estagnação.
Enquanto o mundo parece anestesiado a poesia trasborda em alegria, no sorriso despretensioso, na palavra amiga, no amor de mãe e na cumplicidade de pai.
Poesia é acordar sem hora pra dormir, mas principalmente dormir sem hora pra acordar, é caminhar sem destino, é tomar banho a dois, é bola de gude, bolha de sabão e vontade de mudar.
Tem uma coisa na vida que é poesia...ela é o sim inesperado, é dormir de conchinha, é café com leite, é pão na chapa.
Tem uma coisa na vida que é anestesia...ela é o trânsito parado, o chefe desesperado, a fila que não anda, o amor interessado e o relógio atrasado.
Já a poesia é whisky 12 anos, é música com companhia, é patinar no gelo, é pés descalços, é brinde, é mesa farta, é a simplicidade do dia a dia.
Enquanto o mundo parece insistir na anestesia
eu não desisto da poesia
que por mais que seja escorregadia
sempre chega em dia.
Como essa rima que de tão insistente
por vezes me deixa descontente
mas no desfecho latente
é a possibilidade da mente.
Tem uma coisa na vida que é a poesia.

sábado, 8 de outubro de 2011

metro e o jeitinho brasileiro.


Nas poucas vezes[ainda bem] que pego metro cheio nas estações finais é uma loucura.
Fico olhando aquelas pessoas se espremendo umas contra as outras pra tentar arrumar um lugar pra sentar.
E hoje percebi como isso é uma necessidade de "se dar bem" que o brasileiro tem.
Muitas vezes essas pessoas quase atropelam idosos, gestantes ou pessoas com criança de colo.
E lutando umas contra as outras e ambas contra o cansaço do dia a dia, tentam a qualquer custo sentar num banco até a parada mais próxima de suas casas.
Isso me levou a pensar que provavelmente numa posição de poder algumas dessas ou muitas, ou quase nós todos usaríamos de recursos não tão legais pra nos "darmos bem".
Como nossos queridos colegas que trabalham em Brasília que não perdem a oportunidade de desviar um pouquinho aqui, outro pouquinho ali, assim disfarçadamente como quem corre na frente de um deficiente e muitas vezes não cede o lugar.
E penso eu com meus botões: se essa mulher que corre aqui ao meu lado passando na frente da velhinha que tenta se deslocar em direção ao assento preferencial, se essa mulher pudesse sem que ninguém visse, trocar uma assinatura e de repente cair 1 milhão de reais na sua conta, ela não o faria?
A mania de se dar bem do brasileiro provavelmente extrapola os limites da cidadania, seja no metro do Rio de Janeiro, seja em Brasília onde tanto vemos o jeitinho brasileiro de se viver.
Mas e você? E eu? Estamos pensando sobre isso?
Não seria mais fácil acreditar na igualdade da vida em rede, como se estivéssemos todos juntos, transformando cada espaço, modificando cada olhar, brincando de ser deus.
Mas não, estamos quase sempre olhando pro lado e querendo nos dar bem.
E tudo bem se dar bem. Mas como isso se processa é algo potente como possibilidade reflexiva.
Que venham os frutos da nossa atuação como cidadão.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Deus sou eu

Hoje acordei e gritei pra todo mundo ouvir:
- Deus sou eu.
E sai por ai pintando o mundo como achava que deveria ser.
Conversei despretensiosamente com 4 crianças pelo caminho, a mais velha tinha 4 anos e descobri coisas inimagináveis que estão por trás de tanta sinceridade.
Na rua seguinte ajudei uma velhinha a pular um buraco aberto pelo trator e assim meio que sem querer conversamos um pouco e aprendi coisas inimagináveis que estão por trás da sabedoria da idade.
E assim fui seguindo meu caminho, tropeçando em pedras como um mortal e mudando o rumo das coisas com um Deus.
Numa rua perto do meu trabalho olhei pra um mendigo, fediiido que nem sei como consegui e ele estava bebendo uma cachaça. Sentei e com ele bebi, da mesma cachaça, no mesmo copo e tudo pareceu mudar. Conversamos sobre astrologia, bio política e coisas inimagináveis eu ouvi da boca de um cidadão que fedia como um gamba.
Ele aceitou o banho e lá em casa finalizamos um papo sobre as possibilidades de felicidade.
Nesse dia de Deus corri atrás de ladrão, pulei muros perigosos, conheci donas de casa, putas, senhores e belas mulheres.
Deus que sou tentei negar a máxima católica que diz que "todos somos filhos de Deus".
Eu não, eu sou o próprio Deus, porque assim eu acordei com vontade.
E nessa empreitada esquizofrênica olhei o mundo de outro ponto de vista, com o poder de Deus e com a simplicidade dele mesmo.
E segui seguindo, levando chuva onde tinha seca, levando sol onde tinha chuva, acalmando alguns corações atormentados, levando brisas pra aliviar o calor e desenhando bichinhos nas nuvens.
Utilizei-me do meu forte poder de sedução- porque algumas pessoas acreditaram que eu era Deus- e por isso fui escroto ao negar a benção a uma mulher, banalizei palavras de ordem deixando algumas pessoas confusas, outras angustiadas e algumas completamente revoltadas com "esse maluco de não sei lá onde", como gritavam alguns quando ao subir num palanque eu comecei a rezar e me masturbar ao mesmo tempo.
Quando percebi que a coisa não estava de brincadeira sai correndo e gritando:
- vocês não entendem nada, abram os olhos pra outras possibilidades, Deus sou eu e não esse ai da sua cabecinha medíocre.
E corri desesperadamente por 10, 20 minutos a fio sem saber pra onde ia nem porque corria.
De repente um choro voraz tomou conta do meu corpo, e assim fiquei por mais alguns minutos até que uma senhora de uns 65 anos se aproximou de mim, que estava exarcado de suor e lágrimas e disse:
- meu filho, o que te aflige? Pensa na real possibilidade de encontro com ti que assim estarás encontrando com Deus, já que ele está em cada um de nós. Deus sou eu e é você e somos todos juntos.
Eu então parei, olhei pra ela numa mistura de raiva, amor e confusão e disse:
- Deus sou eu.
Voltei pra casa e dormi leve como um Deus e frágil como um humano.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

MeDo.


Hoje eu acordei com medo. Ontem também. E aquele dia que tinha falado.
Um medo inescrupuloso me fez levantar num susto. Café com leite e medo.
Medo de dormir e de acordar, medo de amar e de ser amado.
Medo do tempo, da vida, da menina que chega, da saudade que vai.
E nessa torturante sensação comecei a brincar de fingir.
Fingir o que sentia e correr pra alegria.
E ai me vi fingindo, que era belo, que podia tudo, que não tinha angústia, que tava tudo lindo e que assim é que deveria ser...
Resultado: ontem acordei com medo.
E anteontem também, além daquele dia que tinha falado.
Escovei os dentes com raiva do medo da dor de dente.
E fiquei quieto, na minha, observando tudo e todos e sem ser observado.
E assim percebi o medo crescendo no meu coração calejado de tantos tormentos, na mente repleta de tanta teoria...o racional tentando explicar o que tá no lugar do inexplicável, tentando entender o que não tem nome, tentando rotular o que passa pelo metafísico e como um alquimista solitário explodo na mais sincera das respostas:
- não há resposta!
Ai fico cabisbaixo, com medo da menina que vem, de tanta gente em volta e tanto vazio por dentro.
Medo de machucar, de ser machucado, de correr os riscos e de errar, medo do sol e da lua e assim por isso tudo me sinto descolado, desconectado desse lugar que chamamos de mundo, nesse planeta que chamamos de Terra e as perguntas voltam: quem inventou tudo isso? quem deu nomes aos meus sentimentos? que dia é hoje? quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
Depois de algumas ligações de trabalho volto a escrever, com medo.
Medo da conta de telefone, da conta bancária, da dor de dente, da dor no peito, da vontade de sumir e de um dia conseguir entender.
Por instantes paro diante de mim mesmo, percebo a importância da solidão que devasta tudo, corroe o peito, mas lá no fundo trás uma serenidade.
Com essa serenidade respiro fundo, olho ao espelho e a lágrima escorre, canto aos quatros ventos porque dizem que quem canta seus males espanta.
E sinto o peito mais leve depois de deixar escorrer palavras pelos meus dedos.
E sinto frio na noite que chega.
E sinto a vontade da liberdade expressiva em toda sua plenitude.
E um sorriso me vem ao rosto, leve, sinto o medo partir.
Por descobrir quão vazio é o universo e diante da certeza das infinitas possibilidades.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

mais uma vez


Mais uma vez ando pelas ruas feito cachorro perdido tentando achar respostas descabidas no peito dilacerado.
Mais uma vez tento descontroladamente voar pelos ares feito pássaro solto brincando de velocidade.
Mais um vez tento diminuir o ritmo, entender a dor e superar o medo.
E como toda vez as respostas são perguntas, a dor insiste em ficar e o peito explode em diversas direções.
Como naquele dia que brincava de dizer verdades quando a mentira ficava escondida.
Igual àquela noite que no escuro da madrugada a menina pede abraço, o sorriso corre frouxo e a tranquilidade parece chegar.
Mais uma vez a doença, a saudade, a dificuldade e a sensação de não ser mais criança destroem com a utopia pueril.
Mais uma vez quebro os paradigmas e grito pros quatro cantos do mundo: "eu sou feliz".
E assim, logo em seguida mais uma vez entro em contradição e [des]acredito na felicidade.
Mais uma vez me sinto criança, jovem e alerta com tantas ideologias, cheio de poesias e com a certeza de um final feliz...
na manhã seguinte tenho preguiça, canso da vida e desperto sem vontade de reagir.
Nessa dicotomia geminiana me reconheço humano.
Na puerilidade existente a maturidade castrante.
Um dentro do outro. O outro dentro de um.
E como se assim fosse o normal, caminho a passos lentos e com a mente acelerada.
Percebendo mais uma vez que o imóvel não pertence a mim, por isso vou de lá pra cá e de cá pra qualquer lugar buscando na dicotomia possível a possibilidade de entendimento.
E na certeza do não entender, a felicidade do estar buscando.
Na hora da tristeza, a possibilidade de mudar de ideia.
No dia da preguiça, um banho frio.
Mais uma vez me desperdiço em mim mesmo, negando a inércia e me entregando ao movimento.
Sendo múltiplo de mim mesmo e um pra quem assim preferir.

domingo, 21 de agosto de 2011

um maluco, um pinguim e a princesa [palhaça] do castelo azul


Era uma vez um maluco. Um desses tipos excêntricos, que gostam de coisas estranhas, usam roupas esquisitas e não assistem televisão.
Era uma vez um pinguim. Que não gostava de frio e sempre se metia nas cobertas da sua dona.
E além deles existia também nesse reino, uma palhacinha que era também a princesa.
O maluco andava por ai sem eira nem beira, cantando aos quatro ventos, falando com criancinhas no meio da rua, abraçando árvores e fingindo que está feliz.
O pinguim, quase tão excêntrico quanto o maluco andava de quatro patas e pra comer um biscoito diferente deita no chão, rola que nem criança e olha como um bobão.
Já a princesa continuava fechada, cercada por muros gigantes, sempre muito bela, maquiada, linda, com um sorriso que contagia, porque todo contato que ela tinha com o mundo exterior era sempre divertido.
O maluco seguia seguindo seu rumo, meio distraído no meio do caminho, chorando ou cantando também fazia as pessoas sorrirem...brindava a vida com leveza e sua busca era sempre precisa.
A princesa um dia decidiu dar uma volta pelo vilarejo e com seu pinguim que nas quatro patas gritava "au,au" sentou num banco de praça. E ficou contemplando a bela tarde de primavera com sua flores coloridas, o céu azul e a vida que segue seguindo.
O maluco que vinha de algum lugar que não se sabe qual e ia para um outro tão desconhecido como, de repente olha pra princesa e sorri. Ela sem saber por que também sorri pra ele.
O maluco que também vive tão cercado de muros parece contagiado com aquele sorriso...e continua a sorrir. O pinguim olha desconfiado.
A princesa por um momento se retrai por ficar assustada. O maluco passa olhando e compra uma cerveja.
Quando de repente eles pareciam se perder um do outro o pinguim corre e começa a brincar com o maluco que na sua maluquice não tinha muito tato com os bichos pois prefere as pessoas. Mas de tão fofo que era o pinguim eles conseguem se conectar.
Em seguida a princesa se aproxima e fala: "vamos pinguim, tá na hora".
O maluco então olha pra princesa e se apresenta:
- prazer, eu sou o Bob.
E ela diz:
- prazer, eu sou a Maria.
Eles não conseguem parar de se olhar e sem mais nem menos começam a rir.
Depois desse riso eles conversaram e riram por horas. O maluco e a princesa que viviam em mundos tão distintos se encontraram no riso. E depois no sexo escondido. Depois no prazer da companhia...e assim seguiram por anos.
Diferentes e complementares.
Estranhos e cúmplices.
Antagônicos e sinceros: o maluco, o pinguim e a princesa[palhaça]