
Num fim de tarde de verão, de um fim de mês corrido, de um fim de relacionamento que se vai, cheio de fins de semanas iguais, no fim de tempo que resta, Raul pensa sozinho e procura a possibilidade de algo novo.
Ai, assim, como quem não quer nada decide que amanhã vai ser diferente, decide que amanhã ele vai realmente estabelecer e cumprir suas vontades, amanhã vai comprar doces, vai visitar um asilo e um orfanato.
Vai falar só verdades e além de tudo vai tentar se desculpar por suas falhas.
E na euforia de uma descoberta tranquilizadora Raul segue dizendo:
- Amanhã eu vou redescobrir a criança que tá lá no fundo do meu coração, vou brindar a felicidade com os amigos, vou comprar roupas novas, surfar as ondas mais altas e sorrir pra todas as pessoas que eu encontrar.
Agora sim, descobri o caminho, amanhã é o dia, o dia de falar que ama pra quem eu amo, de resolver a bobeira da briga da semana passada, de gritar pros quatro cantos: "eu tô amandooooooo".
Amanhã ninguém me segura, amanhã eu vou correr na praia, vou escrever poesias, vou pular corda como criança e vou jogar fora meus prenconceitos. Vou amar mais, ajudar mais, brincar mais, ser mais.
Amanhã vou chorar menos, pedir menos, reclamar menos, querer menos, faltar menos falar menos.
E como se não existisse o agora Raul fica preso naquele que seria o dia do grande encontro, encontro com a paz almejada, e segue planejando:
- Amanhã, amanhã eu vou ser quem eu sempre quis, eu vou doar sangue, vou pedir perdão, vou estabelecer coisas saudáveis e plausíveis na minha vida, vou acreditar na vida, vou trocar de time, vou comprar passagens pra uma viagem de descanso, vou correr menos e viver mais. Além disso tudo - disse Raul - vou fazer uma coisa que a muito tempo não faço: agradecer.
Amanhã eu vou agradecer, agradecer pelo pão, pela água, pelo sol, pelo mar, pelas estrelas.
Amanhã eu vou entender que não preciso de muita coisa, que a vida é mais simples, que o dia seguinte é só o dia seguinte e que aquela menina está me olhando.
Amanhã sim! Hoje não!
Amanhã amor! Hoje ódio!
Amanhã esperança! Hoje desespero!
Amanhã o tudo! Hoje o nada!
E nessa energia transformadora Raul vai dormir. Nesse sono ele antes de dormir agradece pelo belo dia de vida e antecipa uma das coisas que faria amanhã.
Na mesma hora que deita Raul tem um enfarto fulminante e se despede da vida! Percebe que o tempo acabou e vai, tentar outras vezes em outros lugares, porque aqui não há mais espaço pra ele.
..só por hoje..
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