
De repente meus dedos vão escolhendo as letras que vão aqui se juntando e formando essas palavras que agora são lidas e que juntas formam frases e assim supostamente consigo me comunicar com você que ai me lê. Nessa busca por letras e palavras e expressões meu dedo pára.[espaço reservado para um silêncio]
E de repente quando volta a se mexer pára novamente, mas dessa vez na letra t, T, ttttttttttttttttttttt
T de tempo, desse tempo que um dia disseram que era o que nos regia, nessa correria diária, nessa falta de tempo, nessa maluquice que me impuseram. E assim passou-se mais um fim de ano e como se andássemos em direção a algum lugar em linha reta percebo tudo se repentindo e esse tempo que seria linear agora parece circular e tudo parece se repetir depois de toda agitação de natal e de compras imbecilizadas e determinadas pelos deuses do consumo passo mais uma vez a ouvir gritos de liquidação queimas de estoque e assim acho mais concretamente ainda que sou um extra terrestre sem tempo de usar vírgulas. Ufa! Enfim respiro. E não gosto do que sinto.
Agora nesse tempo de promoções nas lojas e em que as roupas não são mais novas e em que os presentes perdem sentido vejo as pessoas agredindo umas às outras, vejo o ladrão continuando a roubar, os motoristas voltando a gritar, a impaciência voltando a reinar e eu mais uma vez sem entender fico olhando pros lados esperando o silêncio.
Há uma semana atrás se falava em amor, em paz, igualdade e compras. Falava-se em nascimento de Jesus, em igualdade, em fraternidade, em compras. Falava-se em perdão, em paixão, em olhar pro próximo e em compras. E com esse tempo que não pára tudo passa e fico aqui pensando que é provável que se falasse só em compras porque só ela continua, todo o resto foi esquecido. E nessa circularidade que por vezes parece linearidade fico parado. Querendo que o tempo pare e que as coisas voltem ao normal, sem entender o que é o normal, sem acerditar em papai noel e as vezes sem acreditar em nada. Assim tento pelo menos acreditar na palavra que sai dos meus dedos, porque elas parecem querer me dizer algo que não consigo ouvir através da liquidação das casas bahia.
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