Hoje eu acordei. Fui ao banheiro, preparei o café e exatamente nessa hora quando bebia meu habitual café com leite descobri que estava morto. É...morto, mortinho da silva. Primeiro foi aquele susto, dai os minutos foram passando e eu corri pra frente do espelho. Eu estava igual, do mesmo jeito, o mesmo cabelo preto e muito liso, os mesmos óculos arredondados, as marcas de expressão de quem já tá com 33 anos. Enfim, ali diante do espelho fiquei a me olhar e a pensar:
-"por que eu corri tanto e pra tantos lugares que nem acreditava ser legais, só porque disseram que era legal e disseram que eu tinha que estar. Eu devia ter olhado mais as pessoas nas ruas, abraçado, sorrido, acreditado mais nelas."
-Meu Deus, exclamei aflito, porque eu não casei com a Renata? Como pude deixar de viver isso por puro medo! Como fui desonesto com a Mariana. Por que guardei tanto dinheiro? Por que menti tanto? Por que não fui a praia aquele dia com meu filho? Como consegui ignorar aquele mendigo que pedia um prato de comida? Por que neguei aquele dinheiro ao meu colega? Por que nunca escalei uma montanha? Por que não saltei de pára-quedas?
E assim nesse turbilhão de lembranças, arrependimentos e perguntas sai andando pelas ruas, e realmente descobri que estava morto. Ninguém me via, eu andava pelas ruas igual aquelas cenas de filme e falava com as pessoas sem ser ouvido. Aquilo tudo foi me trazendo uma grande aflição, então eu parei na frente do mar e chorei. Chorei como há anos não chorava. Chorei de saudade, de medo, de vontade de sentir um abraço apertado de um amigo. Chorei porque descobri que não fui sincero como deveria, que não amei como podia. Chorei como criança com dor de adulto. A tarde caia e o Sol atrás de uma montanha formava um lindo feixe que atravessava minha visão e minha alma. Como um filhote desgarrado da mãe voltei a andar pelas ruas sem rumo. Admirando a beleza da vida e a solidão da morte. Mas percebi, lentamente que estava me sentido melhor, que a cada minuto aquela dor estava passando e meio sem perceber me vi em um lugar desconhecido. Eu que agora a pouco estava nas ruas da minha cidade, passo a olhar pros lados e não reconhecer. Mais uma vez assustado páro e fico observando o movimento. Até o momento que reconheço ao longe, minha avó. Num misto de angústia e felicidade corro até ela e dou um abraço. Ela me olha e diz: "vamos".
Eu pego na mão dela e vou. Sem olhar pra trás. Com a certeza de poder mais uma vez tentar a felicidade.
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